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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Ver talvez seja encarar


        Talvez estejamos tão habituados a não olhar para nada que nem chegamos a olhar os olhos de outras pessoas, que para alguns são janelas da alma, para outros planetas distantes dos nossos. Eu, que vos falo por letras, que tantas e tantas vezes já escorreguei meus olhos por pequenas belezas, não sabia da profundidade desse “não ato”. Olhar o próximo, mas olhar como quem olha um dos seus. Hoje não é feriado, ao menos dia especial. É mais uma daquelas quintas-feiras que não servem para nada, além de aumentar nossa ansiedade pelo fim de semana. Ora, pois, ela estava na porta da padaria, como tantas outras vezes está assim como quem quer contrastear essa realidade medíocre e despercebida. 
        Andei como quem nada queria e tinha, além das moedas dos pães da noite quando aquela moça de voz tão miúda quase que por sussurro me pergunta se poderia lhe ajudar com alguma moeda, não podia. Havia comigo exclusivamente as poucas moedas que sobraram para o pão, e duas latas geladas de energético e cerveja para quem pretendia passar a noite escrevendo. Avisei aquela criatura que até então não havia me dado conta de que se tratava de uma menina presa em um corpo de mulher. Entrei, paguei pelos pães e ao sair perguntei-lhe se pães serviam como quem por educação pergunta e para testar a intenção do pedido, uma atitude errada de minha parte. A moça aceitou, sem saber o que fazer exatamente entrei e pedi outra sacola plástica e sem me dar conta que outras pessoas dentro da padaria nos olhavam com um ar reprovador para o meu ato. Sai, dividi ao meio o que havia de pães e perguntei se ela mora por aqui. Mora depois da ponte, mas não me contive em fingir que sabia onde ficava. Ora, que ponte? Ela deu um sorriso envergonhado e explicou. 
      Não sei seu nome, como não sei o nome de milhares de outras pessoas que cotidianamente esbarro, mas sei que aqueles eram os olhos mais tristes que vi em todos os meus vinte e um anos. Ela me agradeceu pelos pães e segui minha vida, como todos os dias comuns, mas agora enquanto escrevo sinto que um pedaço de mim ficou na calçada daquela padaria. Um pedaço pequeno que não quero encontrar outra vez, diferente daquela menina, que por absoluta certeza sei que não haverá de ler o que escrevo. Menina essa que encontramos em todos os lugares, em todos os olhares abandonados, desesperançosos e mutilados. Olhares tão solitários quanto à própria palavra solidão. Olhares envergonhados por existirem. Pergunto-me enquanto escrevo sem pretensão alguma além da de arquivar aquela tristeza se nesse momento em que estou sentada dispondo de conforto e segurança, se aquela menina já passou pela ponte e voltou para casa? Se aquela menina, que arrisco dizer ter minha idade poderia mesmo estar dentro de uma universidade, como estou sem vangloria. Se as bocas que se sujam de palavras a berrar que todos têm as mesmas oportunidades de “crescer” na vida teriam coragem de largar seus lares, seus conformismos para ao menos olhar o outro como quem olha para si e então dizer se temos mesmo as mesmas oportunidades. Vagabundo meu caro, é o argumento que suja os sonhos alheios. Para mim, a menina dos olhos tristes afirmou o que sempre tive em minhas pontas de dúvidas: é preciso olhar nos olhos e ouvir deles o que as bocas não falam.
 Williany Souza

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